segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Indiferença.

O gesso parece se vangloriar ao se demonstrar alvíssimo. Por entre as formas cândidas e cabais, as extremidades ora arredondadas, ora agudas revelam uma deformação exterior. Contudo, dentro de si o impressionismo se instalava. As pessoas por vezes passavam atarantadas com seus inúmeros afazeres, algumas delas a tocavam e provavam de sua frieza oriunda do calor específico de seu material. Todavia, a limitada Física não explica o que há por trás das restritas leis científicas. Circunscrevendo sentimentos oblíquos, a imobilidade grotescamente parecia lhe satisfazer. O incômodo lhe era causado pela indiferença, que destruía. Perturbava a prepotência da aparência, ora, pois essa queria se sobressair sobre a essência. Encolerizava a eficiência com que os padrões se estabeleciam e a forma como o superficial maravilhava esses espíritos pobres incapazes de ver além do que se está nítido. O translúcido é tão mais belo. Chovia agora e as gotículas de água desciam brincando sobre a superfície límpida. Serena, aquela forma sem vida olhava de tal forma nos meus olhos que as lágrimas foram inevitáveis, rolando sobre a minha face, misturavam-se com a chuva quente que banhava tudo. Presente divino! A culpa era que me fazia tremer as mãos. Por tantas vezes me fiz indiferente ao belo, buscando nas futilidades a excelência. Exaltava-me a raiva: ignorante aquele que se julga livre dela e pior ainda aquele que não se permite errar. Agora o que me resta é traduzir em palavras os profundos sentimentos dessa estátua, que me parece tão mais viva que essa massa medíocre de pessoas baixas preocupadas em se socializar.