quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Silepse.

A aurora infiltrara-se sem permissão pelos cômodos escuros. Perto, como se ao longe, as ondas desinibidas agitavam o mar, e a areia branca refletia a manhã sem chuva. Embebido na sinestesia da cor local esboçada no canto harmonioso dos pássaros e na vibração das asas daqueles insetos dos quais nunca achara adjetivo cabível, notara o espelho na parede. Chegara o momento da verdade. Náuseas. A aparência apenas metaforizava a essência erosiva. Procurando a força, fora o herói dos fracos. Buscando lealdade, fora infiel. Tonturas. Lutando pelo amor, esbarrara no ódio. Angústia. Almejando ao sucesso, esquecera de quão subjetiva é a vitória. Palidez. Não lhe parecia suficiente intuir apenas agora que ter uma casa, não é ter um lar; que ser socialmente aceito, não é ter amigos; que trabalhar sem dignidade é viver sem propósito; e que conquistar sem honra é perder sem tentar. Visão nublada, membros trêmulos. O olhar pleonástico desbravava a silepse envolvente simultânea ao sorriso semanticamente abrangente. Taquicardia. As lágrimas que deslizavam agora desenhando no rosto tênue fixavam o júbilo de outrora, o prazer moral do descobrimento próprio. Inconsciência. Coma. Assim se mantiveram as lágrimas, desenhando puramente na face meticulosa, até que os olhos enfastiados e túrgidos nada mais expressassem.

Escrito por Beatriz C.  Zanatel, 2 de dezembro de 2010.