segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O desfazer do feito.


O silêncio fagocita o que era para ser dito e, desde que haja sensibilidade, as palavras ainda assim teimam em existir. Por fora, multidão; por dentro, também. Multidão de sentimentos que coexistem, que não necessitam de sentido algum para vibrarem na frequência exata das ondas que emitem a essência. No íntimo, faz-se sentir. A combustão é gerada: o medo importuna, a impaciência digere e o nó na garganta aumenta o desejo por poder, humildemente, ser. O grito preso ecoa para dentro e invade a alma transgressora inepta que chora. As lágrimas, entretanto, permanecem estáticas, nuas. O desejo que a respiração permaneça no ímpeto, que se espalhe sobre o espírito o desfazer do feito. O branco colore-se pelas cores da consciência íntima que floresce verdade para o espírito em que a multidão interna ainda sofre por não conseguir competir com a externa, com a moldura, com o superficial. A chamada textura hegemônica vai além da fundamentação teórica de Gramsci. O peso da sintonia invisível quanto à matéria e sensível quanto à energia traz consigo um amontoado de opressões guardadas no íntimo. A alma pede por estímulos, suplica em nome de uma individualidade quase nula, segurando sobre as mãos hesitantes a vontade de que essa não seja uma luta com causa, mas sem resultados.

Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 22 de fevereiro de 2011.