quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Trapiche.

“Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinha encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente, diante do trapiche se estendia o mistério do mar oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite.” (Capitães da Areia – Jorge Amado)


De repente, eram aqueles olhos túrgidos que metaforizavam o trapiche abandonado verdadeiro, que recobria a alma fluida e densa. Sob a visão delicada da metonímia, alguns cabelos livres exemplificavam o vento que outrora tinha cheiro de mar. Era mar de infância, com gosto de ingenuidade e jeito de quem sentia, mas não sabia o que era sinestesia. O tempo é sábio; a dor, estimulante. Talvez nem todos os veleiros estivessem prontos. Alguns afundaram pelo caminho ao desmerecer os sonhos, propagando na direção da sensatez. O perdão continuava na superfície: designava os alicerces da ponte sólida que fixava a necessidade de continuar acreditando no melhor das pessoas. Todavia, são nos porões absortos, iluminados pela escuridão vazia, que moram as vontades e os medos. A culpa conduzia à tênue idealização. Sentia-se prisioneira daquele corpo que não era máquina. Daquele corpo que era corpo: aprisionador de alma. Via-se como o trapiche. Embora habitada pela ingenuidade lúdica, vivia de pequenos furtos – sorrisos, lágrimas, palavras. Tudo o que pudesse lhe ensinar algo. Não era mais ela que dava vida ao trapiche. Era o trapiche que dava vida a ela.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 23 de novembro de 2011.