Talvez a chuva, que insistia em molhar as roupas esquecidas no varal, já não fosse mais a mesma. Caía lenta agora. Compreensiva. Como se cada gota fosse um pedacinho valioso de uma fragmentação intensa, duradoura. De certa forma, não eram mais os mesmos os olhos que examinavam as gotículas que se aglutinavam sobre o vidro. O coração acompanhava o ritmo da música sinestésica que alimentava a alma pálida, suave. Nutria aquela pluralidade viva, de perspectivas excêntricas e sincréticas. As mudanças mais uma vez aconteceram. Materializavam sobre o corpo uma vontade ainda obscura. Sobre a mente, a certeza de origem estóica: a impossibilidade de controle sobre a vida lhe encolerizava e, simultaneamente, secava-lhe as lágrimas quentes. Agia por amor. Agia para se fazer plena. Desistir da perfeição não a fez deixar de lado a busca por ser cada dia melhor. A humildade resolveu cobri-la de dignidade: fez-se humana. Atitudes que não criam expectativas em relação à reciprocidade são fundamentais. E aceitar, às vezes, é substancial.
(Fonte: meunovobebe.blogspot.com)
Escrito por Beatriz C. Zanatel, 15 de dezembro de 2011.
