Anestesiava-se com a dor que
fluía no peito alvo, coberto pela seda ocre que deslizava intrínseca às mãos.
Mãos vazias, frias, esquálidas. A angústia que se materializava no timbre do
silêncio rancoroso, guardava uma tristeza vaga. Uma tristeza sem propósito, que
nem mesmo a metafísica fundamentava. O “eu” distanciou-se do corpo empírico.
Como uma criança assustada, olhava para o cenário em que a multidão,
paradoxalmente, construía uma solidão fúnebre. A necessidade do “escolher”
perdurava, devorando expectativas, servindo-se da doçura da alma indefesa que,
por desventura, fugia, machucava-se. Cresceria um dia a pobre criança? Ela sabia que o tempo estava disposto a
esperar, a acolhê-la num abraço quente e reconfortante. Todavia, a morada das
circunstâncias era o presente. Um presente tão desejável quando as
circunstâncias estavam guardadas no pretérito... Quando esse presente era
apenas o futuro. Como qualquer criança, necessitava de colo. Entregou-se ao
afago da melancolia, enquanto a confiança em si não era plena.
Escrito por Beatriz C. Zanatel, 3 de junho de 2012.