quinta-feira, 7 de junho de 2012

Quando esse presente era apenas o futuro.


   Anestesiava-se com a dor que fluía no peito alvo, coberto pela seda ocre que deslizava intrínseca às mãos. Mãos vazias, frias, esquálidas. A angústia que se materializava no timbre do silêncio rancoroso, guardava uma tristeza vaga. Uma tristeza sem propósito, que nem mesmo a metafísica fundamentava. O “eu” distanciou-se do corpo empírico. Como uma criança assustada, olhava para o cenário em que a multidão, paradoxalmente, construía uma solidão fúnebre. A necessidade do “escolher” perdurava, devorando expectativas, servindo-se da doçura da alma indefesa que, por desventura, fugia, machucava-se. Cresceria um dia a pobre criança?  Ela sabia que o tempo estava disposto a esperar, a acolhê-la num abraço quente e reconfortante. Todavia, a morada das circunstâncias era o presente. Um presente tão desejável quando as circunstâncias estavam guardadas no pretérito... Quando esse presente era apenas o futuro. Como qualquer criança, necessitava de colo. Entregou-se ao afago da melancolia, enquanto a confiança em si não era plena. 

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 3 de junho de 2012.