Devagar, levantou-se. Percebera a janela batendo. Concluiu que o culpado era o vento e sem mais delongas, partiu para o lado de fora da casa, sentou no projeto de muro ao lado, formado por duas fileiras de tijolos, não muito bem alinhados, todavia, isso pouco importava. Através das janelas da alma, reparou que as gramíneas balançavam da direita para a esquerda, acompanhando o balanço dos cabelos despenteados e dos galhos das árvores que gritavam por um resto de vida. Após sentir o cheiro das cores vivas de uma ou outra flor do campo perdida pelo local, retirou a mão do bolso do short, e atritou-a na outra. Já bastava de tanta sinestesia. Chegara a hora de deixar a angústia oriunda da indecisão, invadir-lhe peito, rasgando-o e levando todo ou qualquer resquício de impassibilidade para longe. Controlar a imperfeição e a inconstância humana era como domar uma fera faminta. Até onde o limite do certo segue sem invadir o do errado? Até onde se deve levar em consideração como realmente correto, o que essa massa hipócrita que teimamos em chamar de sociedade julga como tal? Via-se inconformada pelo modo como a coerção social implicava em não deixar com que as pessoas pensassem por si mesmas, e esse turbilhão de pensamentos a açoitava de uma maneira na qual personificava seu corpo e sua espiritualidade em que ambos mostravam-se de mãos dadas e numa afinada sintonia como se dançassem ao som de uma canção de ninar. Num passe, as mãos antes quentes, agora estavam gélidas. Sentira um arrepio nos ombros a mostra e então subira a alça da blusa que estava caída, e já num ímpeto, levantara, olhando ao redor e vendo somente a si própria. Resolvera entrar e tentar colocar em palavras suas sensações.
Escrito por Beatriz C. Zanatel, 24 de julho de 2010.
