segunda-feira, 30 de agosto de 2010

isso.

Mesmo sabendo que isso vai passar esse isso atormenta. É um isso doentio, avassalador, que corrói, e chega doer. Na angústia do peito que sofre o isso entra, sem nome. É um sentimento sem sentimento algum, que percorre o corpo inteiro e estaciona na mente. Nela instala-se como um ser heterótrofo, que parasitando, estrangula as forças do hospedeiro e faz com que ele caia, e faz com que ele caia ordenadas vezes, cada vez mais forte. Até que ele não tenha mais desejo de voltar. Até que a alma resolva que ao invés de dar as mãos, aconchegantemente, aquele ser hospedeiro que está sem forças de tanto produzir para que outro consuma, ela o pressiona, o provoca. A alma não se liberta, chicoteia-se por um erro tantas vezes mínimo. Como salvar esse hospedeiro quando somente ele pode buscar energia no seu íntimo angustiante para expulsar o parasita do seu espírito que se enche de amargura? Desalinhado, o pensamento tende a se renovar, a apoiar-se ao que não se mistura à sordidez. A acrimônia começa sentir o efeito da anestesia daquilo que não é turvo, daquilo que é benéfico. A alma finalmente diminui a freqüência da acidez, e adormece, até que o convívio consigo mesmo seja, ao menos, suportável.

Beatriz C. Zanatel, 30 de agosto de 2010.

domingo, 22 de agosto de 2010

a metáfora dos verbos.

Nunca fora o mais sagaz, belo, furioso ou sábio. Todavia, era. E a simplicidade das três letras ordenadas formando o pretérito, banhava-o de tal modo que valia por si. Sem predicativo algum. Sempre julgara os verbos a classe gramatical mais dinâmica, na qual o tempo se mostra como fator limitante. Quando cansou de vagar sob as abstrações, colocou o chapéu, olhou pela janela que estampava as gotículas provenientes da noite sombria, gélida e inóspita. Talvez tivesse chovido. Talvez. A inquietação aumentou, tocara  o chão repetidas vezes com a fina bengala, num ritmo lento, mas que acelerava. O cheiro da escuridão pairava sobre o cômodo enquanto a vela, já no fim, queimava. Moveu a cabeça para ambos os lados, na xícara sobre o criado-mudo o café, ainda quente. Sobrepôs o paletó sobre o corpo esquálido. Caminhou em direção a porta e a fechou, é provável que como nunca tivera fechado. Era exatamente isso que queria, fazer de tudo um passo para o estranho. Ah! Como isso o apaixonava. O único, o diferente, o despadronizado, o impulsivo. E se não fizer sentido, deixe que flua. Para ele, bastava. Bastava o desejo, bastava o fazer. Respeitava o seu desejo. Respeitava o seu fazer. Lá fora, deixou-se fazer da vida a metáfora dos verbos: dinâmica, na qual o tempo se mostra como fator limitante.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

grita.

Como um animal ferido que se retrai a qualquer mínimo e inocente movimento em sua direção, as palavras oriundas do adversário por mais despretensiosas que sejam penetram pela alma do ser, corroendo-o por dentro e rasgando- o com força dolorosa e derramando o sangue que marca o caminho do mesmo. Qualquer frase dita pela não dita, torna-se provocação, que devora e no mais íntimo da explosão angustiante e melancólica que marca, grita.