terça-feira, 12 de outubro de 2010

com a ausência.

A natureza expande sua perfeição, fazendo com tal mérito que, em sua profunda sabedoria, faz da diferença, a beleza. Basta notar que numa única árvore há folhas de discrepantes tamanhos, cores e formas, mas nem por isso deixam sua magnitude. Desestruturado e aprisionado numa teia frágil de arrogância, o homem almeja o perfeito, contudo em sua ignorância, desconsidera o excêntrico. Ora, pois, crer no belo e no socialmente aceito é tão inviável quanto pleitear a hipocrisia e utilizar-se da mentira.
Não há dúvidas que o objetivo humano é a felicidade, por mais que o conceito da mesma não admita qualquer tipo de generalização. O homem vê no medo a infelicidade. E a solidão, o fato de ser “negado” pela humanidade faz com que se esqueça que estar com a ausência é estar com a presença da falta, assinalando assim, a impossibilidade de estar só. Definitivamente, só não enfrenta a solidão quem teme a si próprio.

OBS.: Agradecimento especial à Amarylis pela expressão utilizada no título.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 12 de outubro de 2010.


sábado, 2 de outubro de 2010

O desafio de ser único.

    A subjetividade mascarada pela despersonalização. Seres humanos metaforizados em estátuas em que o expressionismo não se faz presente, sendo a deformação exterior engendrada apenas pela padronização. Transformados em máquinas, vivendo no disfarce do narcisismo coletivo e emaranhados na onipresença do espírito alienado, caminha a humanidade conformadamente aportando as conjunturas oriundas da singularidade cedida por cada um. Diante disso, torna-se um grande desafio ser único.
     Sartre afirmava que a consciência humana é um vazio que precisa ser preenchido. Dessa forma, o filósofo inadmitia a idéia de destino ou de conceitos inatos. Partindo desse pressuposto, coloca-se em pleito se a essência do ser é o produto da educação, ou do adestramento. Pelo panorama efetivo e pela influência dos sistemas geopolíticos, o adestramento é aplicado em cada ser, hoje, disseminadamente, na formação do caráter pessoal, através de um anexo de normas que, de tão repetidas, são internalizadas e vistas como naturais. O saldo dessa operação é a extinção da autenticidade, bem como da autonomia, isto é, a liberdade moral e intelectual torna-se opaca.
     O ser fundido nos seus instintos, na racionalidade, na emoção, na psicologia e na espiritualidade, deixa-se incluir no processo de massificação. A socialização firma-se de acordo com a manipulação das vontades, dos pensamentos e, consequentemente, das ações. Tomando por base o contexto comportamental tendencioso, individualista, de interesse e de indivíduos com personalidade moldável, a influência dos meios de comunicação, das instituições sociais e do determinismo é facilmente aceita, instalando-se a padronização em circunstâncias que não atravessam o filtro da moral e da ética.
     O ser humano, alienado, não percebe o paradoxo entre seu egocentrismo, baseado na necessidade de ter tudo sob seu controle, e a perda da individualidade, através dos estereótipos de beleza, poder e “status”. O que garante que isso ocorra é a necessidade de aceitação social proveniente do medo da solidão, ocasionando numa visão translúcida sobre felicidade em que ela estaria vinculada a conceitos padronizados: relacionamentos perfeitos e bens materiais, primordialmente.
     Assim como afirmou o egrégio compositor Renato Russo no verso “Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê” da canção “Quase sem querer”, a saída desse marasmo chamado massificação está na superação da superficialidade e do egoísmo instintivo. É imprescindível, para que se obtenha uma postura única, que se enxergue além do palpável ou do já descoberto, inferindo na necessidade da percepção de que as coisas boas estão aprisionadas na alma, onde os sentimentos não precisam de motivos, nem os desejos de razão.