quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Erro

           A subjetividade dos infortúnios criados pelo destino, pelo acaso, ou por qualquer outro nome que se dê às circunstâncias que cercam o ser humano faz com que se mergulhe no próprio ser. O amontoado que se aglutina - corpo, mente, espírito - constrói-se diante de escolhas. A "pseudo-liberdade" destinada a abraçar a ideia de escolha encontra-se reprimida diante da possibilidade de erro. Erro. A palavra de cunho melancólico, ao inserir-se na ditadura da sociedade instantânea, metaforizou-se em fracasso. Ora, não há mais tempo para errar. A cobrança é unidirecional: do indivíduo ao próprio indivíduo. A necessidade instintiva de poder, aliada ao hedonismo e as mazelas da pós-modernidade, fez do ser um amontoado de normas a serem preenchidas para uma suposta realização pessoal. Mas como realizar um indivíduo se o próprio indivíduo permanece tão distante de si? É preciso aceitar a condição humana. É preciso aceitar que a imperfeição pode ter suas vantagens, e que os erros são pretextos valiosos para que mudanças aconteçam. 

(Página Templo Cultural Delfos)

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 26 de outubro de 2012.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Quando esse presente era apenas o futuro.


   Anestesiava-se com a dor que fluía no peito alvo, coberto pela seda ocre que deslizava intrínseca às mãos. Mãos vazias, frias, esquálidas. A angústia que se materializava no timbre do silêncio rancoroso, guardava uma tristeza vaga. Uma tristeza sem propósito, que nem mesmo a metafísica fundamentava. O “eu” distanciou-se do corpo empírico. Como uma criança assustada, olhava para o cenário em que a multidão, paradoxalmente, construía uma solidão fúnebre. A necessidade do “escolher” perdurava, devorando expectativas, servindo-se da doçura da alma indefesa que, por desventura, fugia, machucava-se. Cresceria um dia a pobre criança?  Ela sabia que o tempo estava disposto a esperar, a acolhê-la num abraço quente e reconfortante. Todavia, a morada das circunstâncias era o presente. Um presente tão desejável quando as circunstâncias estavam guardadas no pretérito... Quando esse presente era apenas o futuro. Como qualquer criança, necessitava de colo. Entregou-se ao afago da melancolia, enquanto a confiança em si não era plena. 

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 3 de junho de 2012.

sábado, 31 de março de 2012

Complementação.

          O amanhecer sinestésico, ao qual se mantinha voluntariamente refém, parecia ser rasgado por minutos desleais que traduziam a angústia de então. Se os ponteiros já se mostravam exaustos, o medo ainda permanecia resistente. O cenário inóspito e empoeirado por sentimentos que se perderam com o tempo materializava, paradoxalmente, o que não se queria perceber. Dera-se complemento ao que se fazia, há pouco, intransitivo. Fez-se a dúvida. Fez-se a necessidade do “justificar”. O natural fez-se perturbador. E, de repente, o peito que fagocitara o dogmatismo acolhedor agora suplicava por aquilo que o fizesse pulsar. Um aquilo capaz de penhorar a brandura em nome do instável. Em nome de algo ainda não descrito, mas que fosse capaz de o tirar da esqualidez e da inércia concomitante. Por entre as nuances da serena aurora, estagnara-se anestesiado. A fragilidade do existir dubitável fez, então, com que delineasse novas cores.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 1 de abril de 2012.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Metamorfose

         Preparava-se para sua epopeia. Por entre os dedos magros, sonhos esguios. Planejamentos metaforizados sob a cintilante estrada que parecia amedrontar e, concomitantemente, reforçar o sorriso espirituoso que nutria aqueles olhos pálidos. Os livros ainda se espalhavam sobre a mesa. Gratos e dedicados, mostravam-se satisfeitos diante daquela alma cuja razão demorara a se tornar equânime à emoção. Teria se tornado? Se a meia-luz oriunda da janela entreaberta encarregava-se de fazer do cenário cênico e sinestésico, as letras irregulares da escrita suave davam seu toque de verdade ao momento. As pernas cruzadas já não eram de alguém que fora, até então, o produto sincrético de uma socialização involuntária. Via-se sem medo. Riscava. O medo permanecia ali. Arriscava. No entanto, a necessidade de mudar – camuflando-se – designava, aos poucos, uma metamorfose física, psicológica e espiritual. Como numa fotografia, olhava para si: palavras, ideais, comportamentos. Por certo, expectativas apareceriam, driblando a racionalidade estóica e retirando o preto – e – branco da foto.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 31 de janeiro de 2012.

OBS.: Agradecimento especial à Manu Altieri por ter me presenteado com uma imagem capaz de dar um significado ainda maior a cada palavra! (http://www.flickr.com/photos/manualtieri/5808646915/in/photostream)