quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cubismo.

            Talvez a chuva, que insistia em molhar as roupas esquecidas no varal, já não fosse mais a mesma. Caía lenta agora. Compreensiva. Como se cada gota fosse um pedacinho valioso de uma fragmentação intensa, duradoura. De certa forma, não eram mais os mesmos os olhos que examinavam as gotículas que se aglutinavam sobre o vidro. O coração acompanhava o ritmo da música sinestésica que alimentava a alma pálida, suave. Nutria aquela pluralidade viva, de perspectivas excêntricas e sincréticas. As mudanças mais uma vez aconteceram. Materializavam sobre o corpo uma vontade ainda obscura. Sobre a mente, a certeza de origem estóica: a impossibilidade de controle sobre a vida lhe encolerizava e, simultaneamente, secava-lhe as lágrimas quentes. Agia por amor. Agia para se fazer plena. Desistir da perfeição não a fez deixar de lado a busca por ser cada dia melhor. A humildade resolveu cobri-la de dignidade: fez-se humana. Atitudes que não criam expectativas em relação à reciprocidade são fundamentais. E aceitar, às vezes, é substancial.

           (Fonte: meunovobebe.blogspot.com)


Escrito por Beatriz C. Zanatel, 15 de dezembro de 2011.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Trapiche.

“Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinha encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente, diante do trapiche se estendia o mistério do mar oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite.” (Capitães da Areia – Jorge Amado)


De repente, eram aqueles olhos túrgidos que metaforizavam o trapiche abandonado verdadeiro, que recobria a alma fluida e densa. Sob a visão delicada da metonímia, alguns cabelos livres exemplificavam o vento que outrora tinha cheiro de mar. Era mar de infância, com gosto de ingenuidade e jeito de quem sentia, mas não sabia o que era sinestesia. O tempo é sábio; a dor, estimulante. Talvez nem todos os veleiros estivessem prontos. Alguns afundaram pelo caminho ao desmerecer os sonhos, propagando na direção da sensatez. O perdão continuava na superfície: designava os alicerces da ponte sólida que fixava a necessidade de continuar acreditando no melhor das pessoas. Todavia, são nos porões absortos, iluminados pela escuridão vazia, que moram as vontades e os medos. A culpa conduzia à tênue idealização. Sentia-se prisioneira daquele corpo que não era máquina. Daquele corpo que era corpo: aprisionador de alma. Via-se como o trapiche. Embora habitada pela ingenuidade lúdica, vivia de pequenos furtos – sorrisos, lágrimas, palavras. Tudo o que pudesse lhe ensinar algo. Não era mais ela que dava vida ao trapiche. Era o trapiche que dava vida a ela.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 23 de novembro de 2011. 

sábado, 8 de outubro de 2011

Preso em marcha ré.

"When you try your best, but you don't succeed,
When you get what you want, but not what you need,
When you feel so tired, but you can't sleep
Stuck in reverse (...)
(Fix You - Coldplay)





            Entre o fracasso e a glória. Entre o erro e o acerto. Entre o escárnio e o reconhecimento. A fronteira que transforma o ser humano em tal. O êmbolo que impulsiona, por vezes, mostra-se como a faca que fere diante daquilo que um “eu” onírico trata como o ideal. Condicionamo-nos a regras que contribuem para um sucesso preestabelecido, subjugando a subjetividade à posição de coadjuvante. Uma sobreposição cruel que inibe a beleza do simples, fazendo do ser humano um maquinário. Enxergando, em expectativas progressivamente longínquas, concretizações que pressionam. Num misto tênue de persistência e obsessão, o individual se perde: subordina-se à tentativa de perfeição. A humildade parece intimidar-se. A ausência da dignidade se instala. Não são permitidos erros. Dúvidas precisam ser deglutidas. E o “talvez” extinto. Até quando o ser humano vai teimar em abandonar seu papel de ser humano? Permanecemos assim: presos em marcha ré.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 9 de outubro de 2011.

domingo, 31 de julho de 2011

Flor.

        A sinestesia de um desfazer necessário marcava. A melancolia, tomada de ilusões, despedia-se daquele corpo, pois a alma já se aquecia. Sentia o cheiro de todo aquele azul. O gosto de um renovar macio. O toque do verde sobre os cabelos delicados lhe fazia tão bem que puxara o ar com leveza, profundamente, como se os segundos fossem séculos. A dignidade cobria as mãos apertadas. O peito nu vestia-se de amor, pleiteando sobre a efemeridade dos valores. Finalmente o sol dera o ar de sua graça, brincando inocente pelas nuvens incertas que roubavam os medos de outrora. A terra sujava os pés descalços com a intenção de matar a sede em gotas frias que tilintavam por perto. A fraqueza já não lhe serviria mais: a calma tratava de se enraizar. Não olhava para si mais como semente. Fizera-se flor. 

(Imagem: duniverso.com.br)

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 31 de julho de 2011.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vazio: o conforto.

A fragmentação de um vazio necessário desfaz-se. O ideário de totalidade de um nada acolhedor sufoca. Torna-se um desejo da alma inocente, ferida, exausta. As palavras talvez não fossem caminhos adequados nos instantes que ainda restavam de lucidez. Na transição tênue, a vontade do vazio, da “coisa alguma”, do não pensar. Uma fuga de escolhas, uma fuga de todas aquelas mentes que teimavam em deixar um pedaço de si com aquela pequena alma. A frieza não permitia que máscaras se instalassem. A lua resistia lá fora, como um quadro, aparecera outrora na janela... sombreada pelas nuvens teimosas. Fechara os olhos, sentindo-se confortável. Ficaria de joelhos suplicando para que a solidão abraçasse seu espírito, levando-o para onde pudesse humilhar a angústia que retorcia. Entretanto, a solidão não deu ares. Enviou a realidade e o tempo. 

Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 21 de julho de 2011.

domingo, 17 de julho de 2011

Passado: a certeza da existência.

As partículas de areia deslizavam, suavemente, delineando os pés cansados. Olhara para trás. Enxergara as marcas que os membros haviam deixado sobre o solo. Aos poucos, o vento tratava de roubá-las pra si. De alguma forma, a movimentação lhe encolerizara. Absorto, por um momento, desejara personificar o vento para que, então, pudesse apagar o pretérito aos poucos. Encostou-se sobre um galho, permanecendo inepto. Assemelhou-se a ele. Sentiu como se não mais existisse. Concomitantemente, a alma resignava escolhas, negava os fatos, tornava os caminhos translúcidos. Decrescia num processo ininteligível. Viu-se nu. Vazio. Rejeitado pela solidão, leal amiga dos sábios. Foi então que percebera a necessidade de tomar o passado para si. Desejou-o infinitamente. O espírito retorcia-se na agonia perversa que lhe machucava. Queria as cicatrizes de volta. Cobiçava por suas lembranças. A dor rasgava o peito de quem, agora, aspirava pelos erros já cometidos para que lhe restasse, ao menos, um pouco de sabedoria. Voltou a si. Ou melhor, voltou-se para si. A lucidez demonstrava a necessidade de prosseguir. Ainda havia muito para conhecer. Todavia, internalizara a certeza de que o vento jamais apagava marcas. Somente guardava-as no seu íntimo para que pudesse avançar.


Escrito por Beatriz C. Zanatel, dezoito de julho de dois mil e onze.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Interno.

     O olhar evasivo de escuridão e amargura. Nesse misto de decepção e fragilidade, o ser foge de seu encontro em meio a sua procura. Antitético? Procura-se a felicidade. Não se esgotam as metas. Corroem. O nó na garganta. A mente atribulada. Turbilhão. Uma dor inexplicável descrita através do espírito ferido. Desmontam-se quebra-cabeças figurados em cicatrizes invisíveis aos outros, mas que ainda sangram. Os objetivos que se depositam sobre o palco são os mesmos que fecham as cortinas ao som inexorável do aplauso do fracasso. Como se algo pairasse sobre o ar e estivesse além do palpável, gerando a frustração que arde. A cena estagna-se. O ceticismo abraça o ser com as calejadas mãos pessimistas. O erro ensina. A solidão instala-se. A dúvida corrompe. Mas só o medo destrói.  



Escrito por Beatriz C. Zanatel, em algum dia do mês de abril.

quarta-feira, 16 de março de 2011

"O inferno são os outros", Sartre.

     Sê! Não apenas o organismo biótico que respira e fermenta, sê aquilo que te faz sorrir ou chorar. Sê a mão da solidão açoitando aquele que a teme. Sê o criminoso que foge das grades frias da artificialidade. Sê a fraqueza, a prepotência, a dúvida, o anseio. Sê a prosopopeia, a metáfora e a metonímia. Mas, sê. A rejeição que remói é a própria. Não há como agradar a todos e nem há como a todos desagradar. A espada que fere um, carrega o sangue desejado por outro. A alma é livre, o ser que a aprisiona.


Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 23 de fevereiro de 2011.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O desfazer do feito.


O silêncio fagocita o que era para ser dito e, desde que haja sensibilidade, as palavras ainda assim teimam em existir. Por fora, multidão; por dentro, também. Multidão de sentimentos que coexistem, que não necessitam de sentido algum para vibrarem na frequência exata das ondas que emitem a essência. No íntimo, faz-se sentir. A combustão é gerada: o medo importuna, a impaciência digere e o nó na garganta aumenta o desejo por poder, humildemente, ser. O grito preso ecoa para dentro e invade a alma transgressora inepta que chora. As lágrimas, entretanto, permanecem estáticas, nuas. O desejo que a respiração permaneça no ímpeto, que se espalhe sobre o espírito o desfazer do feito. O branco colore-se pelas cores da consciência íntima que floresce verdade para o espírito em que a multidão interna ainda sofre por não conseguir competir com a externa, com a moldura, com o superficial. A chamada textura hegemônica vai além da fundamentação teórica de Gramsci. O peso da sintonia invisível quanto à matéria e sensível quanto à energia traz consigo um amontoado de opressões guardadas no íntimo. A alma pede por estímulos, suplica em nome de uma individualidade quase nula, segurando sobre as mãos hesitantes a vontade de que essa não seja uma luta com causa, mas sem resultados.

Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 22 de fevereiro de 2011.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Causa: Razão e Circunstância.



     Destino. A grande metáfora das estradas cruzando-se a partir do conceito dogmático e inatingível da impossibilidade da vivência só. O dinamismo da vida impede que os caminhos se resumam às linhas paralelas repercutindo na convivência e na eventual indispensabilidade do bom-senso na vida comum. Todavia, até onde o que se planta hoje será o que se colherá amanhã? O controle torna o ser antropocêntrico, e o desejo pelo futuro torna-se a grande frustração. Paradoxal esse desejo, uma vez que o incerto demonstra-se apaixonante.    Não há um livro aonde se possa encontrar por escrito o que cada um passará ao longo de sua trajetória. E a harmonia do cotidiano deve-se a isso. Às atitudes, às surpresas, aos atos que tornam o ser único. Dono e responsável pelo seu fardo. A alma errante e livre em busca do equilíbrio e da temida felicidade, que não se encontra ao fim da longa estrada, mas durante o trajeto, embutida na espontaneidade que nega e concomitantemente garante a excelência da idéia de destino. O modo como lidar com cada circunstância é escolha. Escolhe-se sofrer, escolhe-se sorrir. Escolhe-se acreditar ou não nisso.


Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 27 de janeiro de 2011.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Inexorabilidade.

          Apesar da alma inquieta como uma planta seca na súplica por uma única gotícula de água, o alívio aparecia com a solitária certeza de que tudo, em absoluto, possui como propriedade concreta a efemeridade. Agora, apoiava-se sobre um banco de madeira já apodrecido pelo tempo e assemelhava-se a ele. Não lhe passava pela cabeça apenas esperar que os segundos se arrastassem na sua serenidade. O arrepio frio que se entrelaçou aos nervos aquecidos trouxe consigo o medo. Era uma nova jornada, um novo ano. Entretanto, com algumas marcas cicatrizadas como num disfarce translúcido. Mudanças. Não seria esse o sentido de ser tudo passageiro? Aliás, mesmo que paradoxal, a angústia apenas lhe incentivava a continuar. O que causava o desespero, todavia, era a mão controladora regida pelo corpo assustado. O egocentrismo que consumia o espírito que gritava agora por qualquer aconchego que não fosse aos braços sensatos da solidão era o mesmo que implorava pela aceitação do dinamismo do destino e, consequentemente pelo desprezo ao desejo de possuir tudo conforme lhe era agradável. Conformar-se e adequar-se. Fechara os olhos úmidos. Dias melhores estariam por vir.


Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 2 de janeiro de 2011.