As partículas de areia deslizavam, suavemente, delineando os pés cansados. Olhara para trás. Enxergara as marcas que os membros haviam deixado sobre o solo. Aos poucos, o vento tratava de roubá-las pra si. De alguma forma, a movimentação lhe encolerizara. Absorto, por um momento, desejara personificar o vento para que, então, pudesse apagar o pretérito aos poucos. Encostou-se sobre um galho, permanecendo inepto. Assemelhou-se a ele. Sentiu como se não mais existisse. Concomitantemente, a alma resignava escolhas, negava os fatos, tornava os caminhos translúcidos. Decrescia num processo ininteligível. Viu-se nu. Vazio. Rejeitado pela solidão, leal amiga dos sábios. Foi então que percebera a necessidade de tomar o passado para si. Desejou-o infinitamente. O espírito retorcia-se na agonia perversa que lhe machucava. Queria as cicatrizes de volta. Cobiçava por suas lembranças. A dor rasgava o peito de quem, agora, aspirava pelos erros já cometidos para que lhe restasse, ao menos, um pouco de sabedoria. Voltou a si. Ou melhor, voltou-se para si. A lucidez demonstrava a necessidade de prosseguir. Ainda havia muito para conhecer. Todavia, internalizara a certeza de que o vento jamais apagava marcas. Somente guardava-as no seu íntimo para que pudesse avançar.
Escrito por Beatriz C. Zanatel, dezoito de julho de dois mil e onze.

Nenhum comentário:
Postar um comentário