domingo, 31 de julho de 2011

Flor.

        A sinestesia de um desfazer necessário marcava. A melancolia, tomada de ilusões, despedia-se daquele corpo, pois a alma já se aquecia. Sentia o cheiro de todo aquele azul. O gosto de um renovar macio. O toque do verde sobre os cabelos delicados lhe fazia tão bem que puxara o ar com leveza, profundamente, como se os segundos fossem séculos. A dignidade cobria as mãos apertadas. O peito nu vestia-se de amor, pleiteando sobre a efemeridade dos valores. Finalmente o sol dera o ar de sua graça, brincando inocente pelas nuvens incertas que roubavam os medos de outrora. A terra sujava os pés descalços com a intenção de matar a sede em gotas frias que tilintavam por perto. A fraqueza já não lhe serviria mais: a calma tratava de se enraizar. Não olhava para si mais como semente. Fizera-se flor. 

(Imagem: duniverso.com.br)

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 31 de julho de 2011.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vazio: o conforto.

A fragmentação de um vazio necessário desfaz-se. O ideário de totalidade de um nada acolhedor sufoca. Torna-se um desejo da alma inocente, ferida, exausta. As palavras talvez não fossem caminhos adequados nos instantes que ainda restavam de lucidez. Na transição tênue, a vontade do vazio, da “coisa alguma”, do não pensar. Uma fuga de escolhas, uma fuga de todas aquelas mentes que teimavam em deixar um pedaço de si com aquela pequena alma. A frieza não permitia que máscaras se instalassem. A lua resistia lá fora, como um quadro, aparecera outrora na janela... sombreada pelas nuvens teimosas. Fechara os olhos, sentindo-se confortável. Ficaria de joelhos suplicando para que a solidão abraçasse seu espírito, levando-o para onde pudesse humilhar a angústia que retorcia. Entretanto, a solidão não deu ares. Enviou a realidade e o tempo. 

Escrito por Beatriz Crotti Zanatel, 21 de julho de 2011.

domingo, 17 de julho de 2011

Passado: a certeza da existência.

As partículas de areia deslizavam, suavemente, delineando os pés cansados. Olhara para trás. Enxergara as marcas que os membros haviam deixado sobre o solo. Aos poucos, o vento tratava de roubá-las pra si. De alguma forma, a movimentação lhe encolerizara. Absorto, por um momento, desejara personificar o vento para que, então, pudesse apagar o pretérito aos poucos. Encostou-se sobre um galho, permanecendo inepto. Assemelhou-se a ele. Sentiu como se não mais existisse. Concomitantemente, a alma resignava escolhas, negava os fatos, tornava os caminhos translúcidos. Decrescia num processo ininteligível. Viu-se nu. Vazio. Rejeitado pela solidão, leal amiga dos sábios. Foi então que percebera a necessidade de tomar o passado para si. Desejou-o infinitamente. O espírito retorcia-se na agonia perversa que lhe machucava. Queria as cicatrizes de volta. Cobiçava por suas lembranças. A dor rasgava o peito de quem, agora, aspirava pelos erros já cometidos para que lhe restasse, ao menos, um pouco de sabedoria. Voltou a si. Ou melhor, voltou-se para si. A lucidez demonstrava a necessidade de prosseguir. Ainda havia muito para conhecer. Todavia, internalizara a certeza de que o vento jamais apagava marcas. Somente guardava-as no seu íntimo para que pudesse avançar.


Escrito por Beatriz C. Zanatel, dezoito de julho de dois mil e onze.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Interno.

     O olhar evasivo de escuridão e amargura. Nesse misto de decepção e fragilidade, o ser foge de seu encontro em meio a sua procura. Antitético? Procura-se a felicidade. Não se esgotam as metas. Corroem. O nó na garganta. A mente atribulada. Turbilhão. Uma dor inexplicável descrita através do espírito ferido. Desmontam-se quebra-cabeças figurados em cicatrizes invisíveis aos outros, mas que ainda sangram. Os objetivos que se depositam sobre o palco são os mesmos que fecham as cortinas ao som inexorável do aplauso do fracasso. Como se algo pairasse sobre o ar e estivesse além do palpável, gerando a frustração que arde. A cena estagna-se. O ceticismo abraça o ser com as calejadas mãos pessimistas. O erro ensina. A solidão instala-se. A dúvida corrompe. Mas só o medo destrói.  



Escrito por Beatriz C. Zanatel, em algum dia do mês de abril.