quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Silepse.

A aurora infiltrara-se sem permissão pelos cômodos escuros. Perto, como se ao longe, as ondas desinibidas agitavam o mar, e a areia branca refletia a manhã sem chuva. Embebido na sinestesia da cor local esboçada no canto harmonioso dos pássaros e na vibração das asas daqueles insetos dos quais nunca achara adjetivo cabível, notara o espelho na parede. Chegara o momento da verdade. Náuseas. A aparência apenas metaforizava a essência erosiva. Procurando a força, fora o herói dos fracos. Buscando lealdade, fora infiel. Tonturas. Lutando pelo amor, esbarrara no ódio. Angústia. Almejando ao sucesso, esquecera de quão subjetiva é a vitória. Palidez. Não lhe parecia suficiente intuir apenas agora que ter uma casa, não é ter um lar; que ser socialmente aceito, não é ter amigos; que trabalhar sem dignidade é viver sem propósito; e que conquistar sem honra é perder sem tentar. Visão nublada, membros trêmulos. O olhar pleonástico desbravava a silepse envolvente simultânea ao sorriso semanticamente abrangente. Taquicardia. As lágrimas que deslizavam agora desenhando no rosto tênue fixavam o júbilo de outrora, o prazer moral do descobrimento próprio. Inconsciência. Coma. Assim se mantiveram as lágrimas, desenhando puramente na face meticulosa, até que os olhos enfastiados e túrgidos nada mais expressassem.

Escrito por Beatriz C.  Zanatel, 2 de dezembro de 2010.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

com a ausência.

A natureza expande sua perfeição, fazendo com tal mérito que, em sua profunda sabedoria, faz da diferença, a beleza. Basta notar que numa única árvore há folhas de discrepantes tamanhos, cores e formas, mas nem por isso deixam sua magnitude. Desestruturado e aprisionado numa teia frágil de arrogância, o homem almeja o perfeito, contudo em sua ignorância, desconsidera o excêntrico. Ora, pois, crer no belo e no socialmente aceito é tão inviável quanto pleitear a hipocrisia e utilizar-se da mentira.
Não há dúvidas que o objetivo humano é a felicidade, por mais que o conceito da mesma não admita qualquer tipo de generalização. O homem vê no medo a infelicidade. E a solidão, o fato de ser “negado” pela humanidade faz com que se esqueça que estar com a ausência é estar com a presença da falta, assinalando assim, a impossibilidade de estar só. Definitivamente, só não enfrenta a solidão quem teme a si próprio.

OBS.: Agradecimento especial à Amarylis pela expressão utilizada no título.

Escrito por Beatriz C. Zanatel, 12 de outubro de 2010.


sábado, 2 de outubro de 2010

O desafio de ser único.

    A subjetividade mascarada pela despersonalização. Seres humanos metaforizados em estátuas em que o expressionismo não se faz presente, sendo a deformação exterior engendrada apenas pela padronização. Transformados em máquinas, vivendo no disfarce do narcisismo coletivo e emaranhados na onipresença do espírito alienado, caminha a humanidade conformadamente aportando as conjunturas oriundas da singularidade cedida por cada um. Diante disso, torna-se um grande desafio ser único.
     Sartre afirmava que a consciência humana é um vazio que precisa ser preenchido. Dessa forma, o filósofo inadmitia a idéia de destino ou de conceitos inatos. Partindo desse pressuposto, coloca-se em pleito se a essência do ser é o produto da educação, ou do adestramento. Pelo panorama efetivo e pela influência dos sistemas geopolíticos, o adestramento é aplicado em cada ser, hoje, disseminadamente, na formação do caráter pessoal, através de um anexo de normas que, de tão repetidas, são internalizadas e vistas como naturais. O saldo dessa operação é a extinção da autenticidade, bem como da autonomia, isto é, a liberdade moral e intelectual torna-se opaca.
     O ser fundido nos seus instintos, na racionalidade, na emoção, na psicologia e na espiritualidade, deixa-se incluir no processo de massificação. A socialização firma-se de acordo com a manipulação das vontades, dos pensamentos e, consequentemente, das ações. Tomando por base o contexto comportamental tendencioso, individualista, de interesse e de indivíduos com personalidade moldável, a influência dos meios de comunicação, das instituições sociais e do determinismo é facilmente aceita, instalando-se a padronização em circunstâncias que não atravessam o filtro da moral e da ética.
     O ser humano, alienado, não percebe o paradoxo entre seu egocentrismo, baseado na necessidade de ter tudo sob seu controle, e a perda da individualidade, através dos estereótipos de beleza, poder e “status”. O que garante que isso ocorra é a necessidade de aceitação social proveniente do medo da solidão, ocasionando numa visão translúcida sobre felicidade em que ela estaria vinculada a conceitos padronizados: relacionamentos perfeitos e bens materiais, primordialmente.
     Assim como afirmou o egrégio compositor Renato Russo no verso “Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê” da canção “Quase sem querer”, a saída desse marasmo chamado massificação está na superação da superficialidade e do egoísmo instintivo. É imprescindível, para que se obtenha uma postura única, que se enxergue além do palpável ou do já descoberto, inferindo na necessidade da percepção de que as coisas boas estão aprisionadas na alma, onde os sentimentos não precisam de motivos, nem os desejos de razão.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Indiferença.

O gesso parece se vangloriar ao se demonstrar alvíssimo. Por entre as formas cândidas e cabais, as extremidades ora arredondadas, ora agudas revelam uma deformação exterior. Contudo, dentro de si o impressionismo se instalava. As pessoas por vezes passavam atarantadas com seus inúmeros afazeres, algumas delas a tocavam e provavam de sua frieza oriunda do calor específico de seu material. Todavia, a limitada Física não explica o que há por trás das restritas leis científicas. Circunscrevendo sentimentos oblíquos, a imobilidade grotescamente parecia lhe satisfazer. O incômodo lhe era causado pela indiferença, que destruía. Perturbava a prepotência da aparência, ora, pois essa queria se sobressair sobre a essência. Encolerizava a eficiência com que os padrões se estabeleciam e a forma como o superficial maravilhava esses espíritos pobres incapazes de ver além do que se está nítido. O translúcido é tão mais belo. Chovia agora e as gotículas de água desciam brincando sobre a superfície límpida. Serena, aquela forma sem vida olhava de tal forma nos meus olhos que as lágrimas foram inevitáveis, rolando sobre a minha face, misturavam-se com a chuva quente que banhava tudo. Presente divino! A culpa era que me fazia tremer as mãos. Por tantas vezes me fiz indiferente ao belo, buscando nas futilidades a excelência. Exaltava-me a raiva: ignorante aquele que se julga livre dela e pior ainda aquele que não se permite errar. Agora o que me resta é traduzir em palavras os profundos sentimentos dessa estátua, que me parece tão mais viva que essa massa medíocre de pessoas baixas preocupadas em se socializar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

isso.

Mesmo sabendo que isso vai passar esse isso atormenta. É um isso doentio, avassalador, que corrói, e chega doer. Na angústia do peito que sofre o isso entra, sem nome. É um sentimento sem sentimento algum, que percorre o corpo inteiro e estaciona na mente. Nela instala-se como um ser heterótrofo, que parasitando, estrangula as forças do hospedeiro e faz com que ele caia, e faz com que ele caia ordenadas vezes, cada vez mais forte. Até que ele não tenha mais desejo de voltar. Até que a alma resolva que ao invés de dar as mãos, aconchegantemente, aquele ser hospedeiro que está sem forças de tanto produzir para que outro consuma, ela o pressiona, o provoca. A alma não se liberta, chicoteia-se por um erro tantas vezes mínimo. Como salvar esse hospedeiro quando somente ele pode buscar energia no seu íntimo angustiante para expulsar o parasita do seu espírito que se enche de amargura? Desalinhado, o pensamento tende a se renovar, a apoiar-se ao que não se mistura à sordidez. A acrimônia começa sentir o efeito da anestesia daquilo que não é turvo, daquilo que é benéfico. A alma finalmente diminui a freqüência da acidez, e adormece, até que o convívio consigo mesmo seja, ao menos, suportável.

Beatriz C. Zanatel, 30 de agosto de 2010.

domingo, 22 de agosto de 2010

a metáfora dos verbos.

Nunca fora o mais sagaz, belo, furioso ou sábio. Todavia, era. E a simplicidade das três letras ordenadas formando o pretérito, banhava-o de tal modo que valia por si. Sem predicativo algum. Sempre julgara os verbos a classe gramatical mais dinâmica, na qual o tempo se mostra como fator limitante. Quando cansou de vagar sob as abstrações, colocou o chapéu, olhou pela janela que estampava as gotículas provenientes da noite sombria, gélida e inóspita. Talvez tivesse chovido. Talvez. A inquietação aumentou, tocara  o chão repetidas vezes com a fina bengala, num ritmo lento, mas que acelerava. O cheiro da escuridão pairava sobre o cômodo enquanto a vela, já no fim, queimava. Moveu a cabeça para ambos os lados, na xícara sobre o criado-mudo o café, ainda quente. Sobrepôs o paletó sobre o corpo esquálido. Caminhou em direção a porta e a fechou, é provável que como nunca tivera fechado. Era exatamente isso que queria, fazer de tudo um passo para o estranho. Ah! Como isso o apaixonava. O único, o diferente, o despadronizado, o impulsivo. E se não fizer sentido, deixe que flua. Para ele, bastava. Bastava o desejo, bastava o fazer. Respeitava o seu desejo. Respeitava o seu fazer. Lá fora, deixou-se fazer da vida a metáfora dos verbos: dinâmica, na qual o tempo se mostra como fator limitante.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

grita.

Como um animal ferido que se retrai a qualquer mínimo e inocente movimento em sua direção, as palavras oriundas do adversário por mais despretensiosas que sejam penetram pela alma do ser, corroendo-o por dentro e rasgando- o com força dolorosa e derramando o sangue que marca o caminho do mesmo. Qualquer frase dita pela não dita, torna-se provocação, que devora e no mais íntimo da explosão angustiante e melancólica que marca, grita.

sábado, 24 de julho de 2010

de corpo e alma.


Devagar, levantou-se. Percebera a janela batendo. Concluiu que o culpado era o vento e sem mais delongas, partiu para o lado de fora da casa, sentou no projeto de muro ao lado, formado por duas fileiras de tijolos, não muito bem alinhados, todavia, isso pouco importava. Através das janelas da alma, reparou que as gramíneas balançavam da direita para a esquerda, acompanhando o balanço dos cabelos despenteados e dos galhos das árvores que gritavam por um resto de vida. Após sentir o cheiro das cores vivas de uma ou outra flor do campo perdida pelo local, retirou a mão do bolso do short, e atritou-a na outra. Já bastava de tanta sinestesia. Chegara a hora de deixar a angústia oriunda da indecisão, invadir-lhe peito, rasgando-o e levando todo ou qualquer resquício de impassibilidade para longe. Controlar a imperfeição e a inconstância humana era como domar uma fera faminta. Até onde o limite do certo segue sem invadir o do errado? Até onde se deve levar em consideração como realmente correto, o que essa massa hipócrita que teimamos em chamar de sociedade julga como tal? Via-se inconformada pelo modo como a coerção social implicava em não deixar com que as pessoas pensassem por si mesmas, e esse turbilhão de pensamentos a açoitava de uma maneira na qual personificava seu corpo e sua espiritualidade em que ambos mostravam-se de mãos dadas e numa afinada sintonia como se dançassem ao som de uma canção de ninar. Num passe, as mãos antes quentes, agora estavam gélidas. Sentira um arrepio nos ombros a mostra e então subira a alça da blusa que estava caída, e já num ímpeto, levantara, olhando ao redor e vendo somente a si própria. Resolvera entrar e tentar colocar em palavras suas sensações.


Escrito por Beatriz C. Zanatel, 24 de julho de 2010.

domingo, 11 de julho de 2010

Cotas sociais - inclusão e incentivo.

O sistema de cotas sociais nas universidades brasileiras é uma tentativa de interação e inclusão dos desfavorecidos financeiramente e, por consequência, que ocupam pouca importância na hierarquia social padrão. Sua fundamentação básica é diminuir a desigualde existente, buscando uma justa integração. Portanto, esse sistema merece, não somente atenção, como o apoio da população nacional e a cobrança pela intercessão do Estado nesse processo.
Pois bem, a discrepância social marcou as civilizações, mesmo que colocada em pleito na maioria delas. Em 1789, por exemplo, borbulhava na França o ideal revolucionário que fez com que os burgueses lutassem pela igualdade de poderes, derrubando o absolutismo e a plenipotência com seu ideal liberalista. Dessa forma, a implantação das cotas não é uma maneira de roubar a vaga de um aluno com maiores condições, nem mesmo uma panaceia, mas um incentivo para a igualdade das classes perante o mercado de trabalho.
É fato que um aluno da escola pública não possui, muitas vezes, a estrutura familiar adequada, nem condições de bancar um ensino particular e de qualidade, todavia, é preconceituoso pensar que esse não é merecedor de ingressar numa profissão de mérito como Medicina e Direito. Assim, é justo que esses estudantes disputem com outros do mesmo nível e, atingindo a nota estabelecida, tenham a oportunidade de mudar, a partir do esforço próprio, a situação já preestabelecida para eles.
Diante disso, cabe às universidades o desafio de preservar o nível acadêmico dos cursos, partindo-se do incentivo para que os alunos pensem em entrar numa faculdade e ser, de fato, alguém capacitado para exercer uma profissão e não só terminar o Ensino Médio com o intuito de arrumar um emprego, até mesmo porque as empresas tendem a exigir, cada vez mais, a qualificação e especialização. Se o estudante tiver a visão de que essa é a sua oportunidade crucial, a possibilidade de igualar-se em competência com qualquer outro cursante na área é notável.
Analisar a questão das cotas no Brasil como uma ferramenta efêmera é a maneira mais sensata de principiar a melhoria no ensino nacional, desde que haja o propósito de alteração estrutural no Ensino Básico, isto é, encarar o sistema como fase de transição, aliando a isso uma futura e hipotética extinção da divisão entre dominado e dominante, não haveria a necessidade da perpetuação do sistema de cotas, pois seria alcançada a, então utópica, homogeinização social.
É de senso comum que, teoricamente, os direitos são iguais para todos, embora, na prática, o cenário seja outro, em que é preciso arriscar, com uma atitude transgressora e altruísta para conquistar a plenitude social.



Escrito por Beatriz C. Zanatel, 30 de março de 2010.

sábado, 10 de julho de 2010